domingo, 6 de novembro de 2016

A Proximidade Da Lâmina De Guilhotina

Resultado de imagem para guilhotina

Anos passaram. Nem parece que foi ontem. Nem me lembro de quando foi exactamente. Sei que foram anos e anos fechado numa sala escura a cumprir pena pelos meus crimes. Mas acabei por sair em liberdade por bom comportamento. Não esperava esse desfecho. Jurara que era o fim, que dali só sairia dentro de um saco preto. Ou que servisse de alimento aos bichos da terra....

Da terra eu vim e à terra eu regressarei. Mas andei livre. Nunca me tinha sentido tão... vivo, tão liberto das correntes que tinha, tão... feliz. Mas durou pouco e voltaram os meus demónios a apoderarem-se de mim e a condenarem-me uma segunda vez.

Desta vez, a leitura foi diferente. Desta vez, fui condenado à morte. Morte à francesa. Como a culpa é da minha cabeça, o mais lógico é desfazer-me dela. Posso recorrer mas não sei quanto tempo demorará o recurso a ter sucesso. E enquanto anda e não anda, eu lá ando a caminho do instrumento que me perdoará este pecado que não resisti em cometer.

Lá caminho de queixo para baixo em direcção à guilhotina que existe em praça central. Execução pública? Não sei. Preferia que fosse uma morte rápida e sem dor. Mas julgando pela ferrugem da lâmina, não terei essa sorte. Mantenho então o olhar para baixo, para os meus sapatos que precisam de graxa, para evitar confrontar  olhares dos curiosos e injúrias da plebe pela qual me rodeio.

A lâmina já mostra alguma ferrugem, o que sugere que vai doer. Dor, preocupação pequena para o mal maior que me espera. E aqui vou subindo as escadas e cada vez mais me aproximo deste instrumento. Ainda se nota marcas na lâmina do último pecador que por aqui passou. A lâmina é cega, tal como a justiça e para o que te fiz passar, mereço este destino.

Conformado? Não. Apenas tento não pensar nisso, Sei que no passado foi a primeira vez que dobrava as regras para meu prazer. Desta vez, sinto-me tão à vontade que arrisco-me a partir qualquer regra e norma para só para obter o que já tive e até mais. Não sei bem se é isso que queria mas sei que gostava de aproveitar este pequeno tempo que tenho.

Gostava de voltar a despir os preconceitos e ignorar os avisos e regras e entregar-me ao crime. Não basta ter a fama. Se é assim, também quero ter o proveito. E enquanto coloco-me de joelhos e vejo a lâmina a subir, só penso em ter mais uma vez. Ter aquilo que deixei escapar anteriormente e não pude totalmente saborear. E agora que é maduro, só poderia traduzir-se num enorme banquete.

Será que vou tarde? Talvez. Será que vou sair daqui e tentar obter aquilo que os meus demónios me pedem? Provavelmente não. O mais provável é nada dizer e relutantemente apoiar a minha cabeça no repouso e deixar-me ser trancado e esperar que venhas impedir-me que cortem a corda e que a lâmina me coloque um ponto final na minha dor...

Sem comentários:

Enviar um comentário